Fila dos ossos cresce em Cuiabá e famílias dormem em frente a açougue para receber doações; fotos e vídeos

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Do: Olhar Direto
Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Em busca de ossos de boi, algumas pessoas estão dormindo em frente ao Atacadão da Carne, no CPA 2, em Cuiabá, para receber doações que são feitas todas às segundas e quintas. Já fazem quatro meses desde que a ‘fila dos ossos’ ganhou repercussão nacional e o número de pessoas indo ao estabelecimento atrás de ajuda só aumenta a cada dia.

Bastante emocionada, a biomédica Julianna Castro compartilhou em seu perfil no Instagram nesta quarta-feira (15), um vídeo em que mostra as famílias dormindo na fila. “Eu não sei se isso aqui toca o coração de vocês. O povo está dormindo para pegar osso. Cadê as autoridades desse estado, desse país? Que vergonha”, desabafa.

“Era por volta de 22h50 quando passei. Não é a primeira vez. O açougue já doa há anos, mas ultimamente essa situação é quase todo dia. Aumentou muito por conta da pandemia”, afirma Julianna em entrevista ao Olhar Direto.

As pessoas que passaram a noite ao relento aguardavam pelas doações na manhã desta quinta-feira (16). Alonso Egydio, 63 anos, que chegou por volta das 3h. “Por causa da fila eu vim mais cedo, tem bastante gente”, pontua.

O morador do CPA 3, setor 2, não tem emprego e encontra esperança na doação dos ossos. Sua única fonte de renda são vasos para plantas que ele costuma produzir. Desde que perdeu a esposa para um câncer, há dois anos e quatro meses, ele vive sozinho.

Desta vez, ao ir em busca de ossos, foi surpreendido. Um grupo de voluntárias lhe doou uma cesta básica e um panetone, que irão alimentá-lo por aproximadamente um mês, conforme contou ao Olhar Direto.

“De primeiro, era uma filinha. Agora aumentou bastante. O pessoal tá precisando”, diz o idoso.

A fila para receber ossos ultrapassava duas quadras com moradores de todos os cantos da capital mato-grossense. Ao observar as pessoas que vão até o açougue, percebe-se que a maioria é de idosos e mulheres chefe de família. Alguns aposentados, que não conseguem viver com um salário mínimo (R$ 1,1 mil), doentes e desempregados também buscam um auxílio alimentar no local.

O Atacadão da Carne, localizado no CPA 2, tem cerca de 10 anos no local. A proprietária Samara Rodrigues de Oliveira detalha que durante os dias de doações de ossos costuma acordar 4h30 para organizar a ação. Conforme acompanhou a reportagem, as doações só terminam por volta das 11h.

Contudo, ela pede para que as pessoas não durmam em frente ao açougue. “Ontem mandaram foto para mim e eu entrei em desespero”.

“Essa obra para a gente se resume a gratidão. Nunca passei fome, mas já passamos muitas dificuldades. Eu só tenho gratidão ao Senhor, porque passamos por lutas nessa pandemia, em que vários colegas fecharam seus açougues. Nós não abaixamos nossas portas em nenhum minuto”, celebra.

Por dia, são doados mais de 1.000 quilos de ossos. Ou seja, ao mês, são 8 toneladas de ossos. Cada sacola costuma ir com cerca de 3 quilos. No entanto, há vezes e em que os ossos acabam. A empresária que fica à frente da organização afirma que não gosta de deixar ninguém ir embora com as mãos vazias.

Samara diz que recebe doações ao longo das semanas. Uma delas foram caixas de frango. Quando os ossos finalizam, ela abre as caixas e distribui os frangos para quem precisa.

Nesta quinta, as cestas básicas doadas que chegaram em um caminhão não foram suficientes. Porém, as famílias conseguiram pegar uma senha e devem retornar no sábado (18) para buscar os alimentos.

No fim da ação, os  voluntários costumam fazer uma oração e celebrar mais um dia ajudando o próximo.