Ex-secretário e delegada se tornam réus por envolvimento em esquema de grampos em MT

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Por G1 MT
Paulo Taques e Alana Cardoso são acusados de participação em esquema de interceptações ilegais — Foto: Divulgação

O ex-secretário chefe da Casa Civil, Paulo Taques, e a delegada da Polícia Civil Alana Darlene Cardoso, viraram réus sob acusação de participação no esquema de grampos, entre 2014 e 2015. A decisão dessa segunda-feira (23) é do juiz Bruno D’Oliveira Marques, a pedido do Ministério Público Estadual (MPE). A defesa tem 15 dias para se manifestar.

Em nota, Paulo Taques disse que vai recorrer da decisão e que é inaceitável que ele responda por ação de improbidade antes da conclusão da investigação.

“A decisão não levou em conta as provas que insistem em esconder da defesa, como o depoimento do ex-governador (Pedro Taques) ao MPE e perícias em celulares constantes no inquérito policial, que, aliás, completou cinco anos sem sequer me ouvir”, disse.

G1 tenta contato com a defesa da delegada.

As interceptações ilegais ocorreram durante as investigações da Operação Forti’, comandada pela delegada Alana Cardoso. A operação apurava crimes praticados por organizações criminosas em presídios.

Na decisão, o juiz cita que há indícios de que as escutas realizadas na operação não seguiram o procedimento legal.

“Não foram encaminhados os áudios interceptados dos números incluídos e destacados como Operação Pequi, sendo omitida tais informações do Poder Judiciário, para supostamente, encobrir a inclusão indevida”, diz.

De acordo com o magistrado, os fatos resultaram em atos de improbidade administrativa.

Em 2017, a delegada enviou um documento à Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Mato Grosso (OAB-MT), afirmando que o número da ex-servidora pública Tatiana Sangalli Padilha, ex-amante de Paulo Taques, foi dado ele para que fosse grampeado.

Segundo ela, Paulo alegou que estava sofrendo ameaças por parte da então servidora comissionada e que isso colocaria em risco Pedro Taques, governador à época.

No documento, Alana negou qualquer irregularidade na escuta e disse que foi informada pela então secretária-adjunta de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), Alessandra Saturnino, de que o número de Tatiana e de uma secretária da Casa Civil foram inseridos na operação em caráter de urgência por causa da gravidade da denúncia envolvendo Paulo Taques e Pedro Taques.

“A irregularidade que se observou, a primeira vista, foi o fato de dois números de telefone terem sido objeto de inclusão (num primeiro momento) no feito tombado sob o Código 388.156 (pertencente à Operação FORTI2 – da Diretoria de Inteligência da Polícia Judiciária Civil) e, posteriormente, nos autos de Código 402.907 (pertencente à Operação “Querubim”, presidida pelo delegado Flávio Stringueta”, explica o magistrado.

A suspeita de ilegalidade da interceptação do telefone de Tatiana, à princípio, foi levantada pela juíza Selma Arruda, da 7ª Vara Criminal, que autorizou a escuta. A magistrada disse que o número poderia ter sido inserido de forma irregular na operação.

Operação Querubim

A mesma suspeita de que Tatiana planejava algo contra o governador foi investigada na operação Querubim. Nela, os telefones da ex-amante de Paulo Taques e da amiga dela foram interceptados.

Coordenada pelo delegado Flávio Stringueta, então chefe do Grupo de Combate ao Crime Organizado (GCCO), a investigação foi arquivada 45 dias depois, com a conclusão de que Tatiana queria prejudicar, na verdade, o ex-secretário, e não o governador.

Induzida a erro

Em 2017, investigações do próprio Ministério Público apontaram que o ex-secretário de estado teria induzido delegadas a erro para grampear os celulares da ex-amante e da secretária dele. Nesse processo, ele se tornou réu junto com cinco militares.

O procurador-geral apontou Paulo Taques como o mentor e responsável direto pela montagem do esquema de escutas ilegais para atender seus interesses pessoais e políticos, inventando uma “história cobertura”, ou seja, da suposta possibilidade de atentado contra si próprio e contra o então governador Pedro Taques, de quem é primo, para convencer autoridades policiais a “grampear” os telefones de Tatiane e da amiga dela.

Grampos

O esquema de grampos foi denunciado em maio de 2017 e descobriu-se que mais de 100 pessoas tiveram os celulares grampeados ilegalmente, entre elas, políticos de oposição do governo, advogados, médicos e jornalistas. O ex-secretário chegou a ser preso em agosto de 2017.

A denúncia ocorreu no mesmo dia em que o coronel Zaqueu Barbosa afirmou, em depoimento, que o ex-governador Pedro Taques sabia do esquema de escutas ilegais, assim como o ex-secretário-chefe da Casa Civil Paulo Taques.

De acordo com o MPE, Paulo Taques foi amante de Tatiane Sangalli entre 2009 a 2015, data em que assumiu o cargo de secretário-chefe da Casa Civil de Mato Grosso. Antes, em 2014, Paulo Taques teria montado um ‘escritório’ de interceptações clandestinas durante a campanha eleitoral do primo.

A ex-amante foi interceptada pelo escritório clandestino em outubro de 2014. Tatiane perdeu o cargo de assistente de gabinete e então passou a cobrar de Paulo um novo cargo assim que Pedro Taques foi eleito. Ela ainda teria pedido pagamento da parcela de um carro e com frequência comparecia em eventos oficiais.

Ainda conforme a denúncia, Tatiane ficou amiga de Caroline Mariano, funcionária do escritório de advocacia de Paulo Taques e, em janeiro de 2015, passou a trabalhar como secretária dele.