Afeganistão reacende pesadelo, e UE convoca reuniões de emergência

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De: Folha de São Paulo
Enquanto tenta repatriar cidadãos e funcionários, bloco discute como evitar crise de imigração como a de 2015
Mulheres da província afegã de Bamiyan refugiadas no Paquistão cobrem seus rostos; era 2001, o Taleban estava no poder e a ação dos EUA para derrubar o grupo fundamentalista era iminente (Jerry Lampen – 3 out. 01/Reuters)

Com a memória ainda recente da crise de imigração vivida em 2015 e 2016 —quando recebeu quase 2 milhões de refugiados—, a União Europeia convocou três reuniões extraordinárias após a tomada de Cabul pelo Taleban no Afeganistão.

Nesta segunda (16), o Conselho de Segurança discutiu como retirar do país conflagrado os cidadãos europeus e os funcionários afegãos de instituições da UE.

Na terça (17), será a vez do encontro dos ministros das Relações Exteriores e, na quarta, da reunião dos ministros de Justiça e Assuntos Interiores. Esta última deve discutir não uma, mas duas crises imigratórias.

A primeira já está a todo o vapor nas fronteiras nordeste do bloco: mais de 4.000 imigrantes, a maioria iraquiana, entraram pela Belarus na Lituânia, na Letônia e na Polônia, multiplicando dezenas de vezes o fluxo usual de estrangeiros nesses países

A segunda ainda é só uma ameaça, mas já preocupa os países do sul: Grécia, Itália, Espanha, Malta e Chipre temem que o colapso afegão provoque novas ondas de refugiados vindos pelo mar Mediterrâneo.

A conversa interessa a todos, mas não será fácil: a política para imigrantes e refugiados é um dos temas mais polêmicos entre os 27 membros da União Europeia.

No domingo (15), por exemplo, a Áustria continuava defendendo sua decisão de deportar afegãos cujos pedidos de refúgio tivessem sido rejeitados —posição que já havia sido abandonada por Holanda, Alemanha, França e Dinamarca na semana anterior, quando ficou claro que a retirada dos Estados Unidos abriria uma nova temporada de perseguições.

O bloco já vinha sentindo havia alguns meses uma retomada das ondas de imigrantes, principalmente africanos, após uma trégua forçada durante a pandemia.

Na Grécia, os campos de refugiados —onde aguardam mais de 10 mil requerentes de asilo— só não entraram em colapso nos últimos anos por causa do acordo firmado e renovado entre a UE e a Turquia.

Em troca de indenização, mais de 3 milhões de refugiados de guerra (principalmente sírios) ficaram em território turco nos últimos anos.

A capacidade de absorção da Turquia, porém, está esgotada, estimam entidades internacionais, e o êxodo de afegãos não será pequeno: segundo a agência de refugiados da ONU, cerca de 250 mil já foram forçados a fugir desde o final de maio —a maioria mulheres e crianças.

Após a vitória do Taleban, outros grupos em risco devem engrossar esse fluxo, como ativistas da sociedade civil, jornalistas, escritores, professores universitários, políticos, artistas e funcionários públicos, entre outros.

Neste domingo, uma multidão invadiu a pista de decolagem do aeroporto de Cabul após a tomada da capital, e pessoas chegaram a se pendurar em aeronaves em movimento, como mostraram vídeos em redes sociais, tentando deixar o país.

A Turquia pretende reforçar os bloqueios em sua fronteira com o Irã para barrar os afegãos, o que daria algum alívio aos meridionais, mas a crise no país asiático também preocupa a Lituânia.

Por um lado, o país teme que sua urgência seja ultrapassada pela nova emergência vinda do sul. Por outra, considera que o Afeganistão pode ser nova arma nas mãos do ditador belarusso, Aleksandr Lukachenko.

Até o momento, a Lituânia registra a chegada de apenas 83 afegãos entre os 4.122 estrangeiros que atravessaram a fronteira da Belarus ilegalmente. Mas em mais de um discurso Lukachenko citou os afegãos entre as ameaças que fez ao bloco —e mais diretamente ao governo lituano, que abrigou sua principal rival, a líder oposicionista Svetlana Tikhanovskaia.

“Países ocidentais espalham a podridão no Afeganistão, no Irã, no Iraque, e não temos nem dinheiro nem energia para contê-los, como resultado das sanções impostas [pela UE] sobre a Belarus”, disse o ditador, no final de julho.

No último dia 9, afirmou que não estava “chantageando ninguém com imigração ilegal”, para acrescentar em seguida: “Mas a UE nos colocou em tais circunstâncias que somos forçados a reagir. E estamos reagindo”.

O colapso total do governo afegão, que não estava previsto na resposta à crise do governo lituano, “representa desafios para a segurança de todo o mundo”, disse Darius Kuliesius, principal conselheiro para questões de segurança nacional do presidente Gitanas Nausėda, ao jornal lituano Delfi.

Enquanto a UE discute o que fazer, países europeus de fora do bloco, como Albânia e Kosovo, aceitaram receber temporariamente refugiados políticos que desejam entrar nos Estados Unidos.